A guerra no Oriente Médio tem tido como consequência uma alta não só nos preços do petróleo, mas de todos os produtos derivados. Incluindo um insumo fundamental para a agricultura – os fertilizantes.
Em retaliação aos ataques dos EUA e Israel, o Irã ordenou o fechamento do Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento do comércio mundial por onde passa uma fatia considerável desses produtos exportados para o resto do mundo.
Os países do Golfo Pérsico são um dos principais exportadores de fertilizantes, processados a partir do gás natural abundante na região, mas dependem da passagem pelo Estreito para escoamento de sua produção. Assim, desde o dia 28 de fevereiro (quando se iniciaram os ataques), o preço da ureia acumula uma alta de 50%, enquanto que o MAP (fosfato monoamônico), alta de 14%.
Outros grandes exportadores de fertilizantes são a China e a Rússia. A China, apesar da importância no mercado de exportação desses insumos, também é uma grande consumidora, razão pela qual costuma impor limites às exportações. Como de fato impôs no início do conflito, de olho nos preços do mercado internacional.
A Rússia, por outro lado, é uma grande fornecedora de NPK ao Brasil e anunciou também no dia 23 de março a proibição às exportações. Medida preocupante para a agricultura brasileira, que depende em 85% de importações para seu consumo de fertilizantes.
Fenômenos como o conflito entre potências no Oriente Médio e a guerra Rússia e Ucrânia denotam uma mudança no cenário geopolítico que devem ser consideradas pelo Brasil em sua estratégia econômica. Não se vive mais no cenário pós-Guerra Fria, da globalização dos anos 1990, no qual os países podiam depender do livre-comércio dentro de uma estratégia de vantagens comparativas – fixando-se na exportação de alguns produtos e dependendo da importação de todos os demais.
Para o Brasil, país rico em recursos naturais, território e população, cabe adotar políticas industriais de retomada da produção interna dos mais variados setores, dentro de uma estratégia de autarquia produtiva, menos dependente de fornecedores do mercado internacional. Afinal, nada indica que os grandes conflitos internacionais, resultantes do acirramento da competição entre as grandes potências mundiais (EUA, Rússia, China) e regionais (Israel, Irã), venham a reduzir de intensidade.
Resta saber até que ponto as elites dirigentes brasileiras, da esquerda à direita, aferradas aos paradigmas neoliberais da globalização econômica, acordaram para a situação. Ainda que iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, a partir da retomada da produção por plantas da Petrobras tenham sido postas em prática, há de se pensar em políticas mais ousadas de retomada da produção nacional – se possível com maior participação do setor privado.


