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25 de agosto de 2026 por Arthur Kowarski

Civilização Aquiry: descobertas revelam uma Amazônia complexa há mais de dois mil anos

Civilização Aquiry: descobertas revelam uma Amazônia complexa há mais de dois mil anos
25 de agosto de 2026 por Arthur Kowarski

Geoglifos monumentais, centenas de quilômetros de antigas estradas e novas estimativas populacionais reforçam as evidências de que sociedades indígenas transformaram profundamente o sudoeste da Amazônia muito antes da chegada dos europeus

Durante décadas, uma das imagens mais difundidas sobre a Amazônia pré-colombiana foi a de uma imensa floresta praticamente intocada, ocupada por pequenas comunidades indígenas dispersas e incapazes de sustentar populações numerosas. As descobertas arqueológicas realizadas nas últimas décadas, porém, vêm modificando profundamente essa interpretação.

Um dos exemplos mais importantes encontra-se no atual Acre e em áreas vizinhas do Amazonas, Peru e Bolívia. Nessa região floresceu, há mais de dois mil anos, um complexo conjunto de sociedades indígenas que alguns pesquisadores passaram a denominar CivilizaçãoAquiry.

A principal marca deixada por essas populações são os famosos geoglifosdoAcre: gigantescas estruturas geométricas construídas mediante a escavação de valas e o deslocamento de grandes quantidades de terra. Círculos, quadrados, retângulos e outras figuras, algumas com centenas de metros de dimensão, permaneceram durante séculos escondidos pela floresta.

Mais do que curiosidades arqueológicas, essas estruturas estão ajudando pesquisadores a reconstruir uma página ainda pouco conhecida da história da Amazônia.

Uma civilização sem nome conhecido

O termo “Aquiry” não corresponde necessariamente ao nome pelo qual esses antigos habitantes se identificavam. Não existem registros escritos conhecidos que revelem como essas populações chamavam a si próprias.

A denominação deriva de Aquiry ou Aquiri, antigo nome associado ao atual rio Acre e que posteriormente estaria na origem do próprio nome do estado.

Por isso, “Civilização Aquiry” deve ser entendida sobretudo como uma denominação arqueológica para identificar um amplo complexo sociocultural existente no sudoeste amazônico, e não necessariamente como um único povo ou império.

Essa distinção é importante. Até o momento, não existem evidências de que Aquiry constituísse um Estado centralizado comparável ao Império Inca, com capital, soberano e administração territorial organizada.

As evidências apontam mais para uma extensa rede de comunidades culturalmente relacionadas, capazes de construir grandes obras coletivas, modificar a paisagem e manter sistemas regionais de comunicação.

Uma história com mais de dois mil anos

As pesquisas arqueológicas indicam que esse complexo cultural teria se desenvolvido aproximadamente entre 600 a.C. e 850 d.C., embora diferentes sítios possam apresentar cronologias distintas.

Isso significa que grandes obras de engenharia de terra estavam sendo realizadas no sudoeste da Amazônia muitos séculos antes da chegada dos portugueses e espanhóis ao continente americano.

O território relacionado a essas populações também parece ter sido muito maior do que se imaginava inicialmente.

Pesquisas recentes ampliaram a área potencialmente associada ao complexo Aquiry para cerca de 183 mil quilômetros quadrados, abrangendo principalmente o Acre, mas alcançando áreas do sul do Amazonas e regiões atualmente pertencentes ao Peru e à Bolívia.

Os monumentos escondidos pela floresta

Os geoglifos constituem a manifestação mais impressionante dessa antiga ocupação.

São grandes estruturas escavadas no solo, geralmente delimitadas por valas e aterros, formando desenhos geométricos perfeitamente identificáveis quando observados do alto.

Durante séculos, muitos desses monumentos permaneceram invisíveis sob a cobertura vegetal. Parte deles começou a aparecer com maior clareza em consequência do desmatamento e da abertura de áreas para atividades agropecuárias.

Mais recentemente, imagens de satélite e tecnologias como o LiDAR, capazes de identificar alterações do relevo mesmo sob vegetação densa, revolucionaram a arqueologia amazônica. Essa tecnologia consiste no sensoriamento remoto por pulsos de laser para medir com alta precisão a distância entre um sensor e a superfície terrestre. No caso da Amazônia, permite detectar o relevo exato sob a cobertura da floresta – indetectável por fotografias aéreas, como antes eram geradas as imagens.

Os levantamentos revelaram que as estruturas conhecidas provavelmente representam apenas uma parcela do patrimônio arqueológico existente na região.

A construção dos geoglifos também demonstra considerável capacidade de organização social. Foi necessário mobilizar trabalhadores, planejar as estruturas, retirar grandes volumes de terra e manter os espaços ao longo do tempo.

Curiosamente, muitos desses locais apresentam relativamente poucos vestígios de ocupação doméstica permanente.

Por essa razão, arqueólogos consideram possível que parte dos geoglifos tenha funcionado como centros cerimoniais, religiosos, políticos ou comunitários, utilizados periodicamente por populações que habitavam áreas próximas.

Uma Amazônia cortada por estradas

Outra descoberta vem tornando o cenário ainda mais surpreendente.

Os geoglifos não estavam necessariamente isolados. Diversas estruturas aparecem conectadas por antigos caminhos e estradas.

Levantamentos recentes identificaram centenas de vias, totalizando aproximadamente 350 quilômetros de caminhos antigos associados aos monumentos e assentamentos da região.

A existência dessa infraestrutura sugere que diferentes comunidades mantinham contatos regulares entre si.

Surge, assim, a imagem de uma paisagem organizada em torno de assentamentos, centros cerimoniais e redes de comunicação terrestre — uma configuração muito diferente da ideia tradicional de pequenos grupos completamente isolados na floresta.

Essas estradas também mostram que, embora os rios fossem fundamentais para as sociedades amazônicas, a circulação terrestre desempenhava papel importante em determinadas regiões.

Quantas pessoas viveram nessa região?

A questão populacional é uma das mais controversas e fascinantes.

A partir de levantamentos arqueológicos, imagens de satélite e amostragens realizadas com LiDAR, pesquisadores vêm tentando calcular quantas estruturas ainda podem permanecer escondidas sob a floresta.

Algumas estimativas recentes sugerem a possível existência de mais de 20 mil centros de terraplenagem espalhados pelo território relacionado ao complexo Aquiry.

Com base nesses dados, estudos chegaram a propor que a região poderia ter sustentado, em seu período de maior ocupação, uma população entre aproximadamente 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes.

Os números devem ser interpretados com cautela. Não se trata de um censo, mas de estimativas construídas a partir de modelos arqueológicos e amostragens. Novas descobertas poderão confirmar, revisar ou reduzir esses valores.

Ainda assim, mesmo que as estimativas mais elevadas sejam revistas, a quantidade e a extensão das estruturas já conhecidas demonstram que o sudoeste amazônico abrigou sociedades capazes de modificar a paisagem em escala considerável.

Floresta intocada?

As descobertas relacionadas à Civilização Aquiry fazem parte de uma transformação mais ampla na maneira como arqueólogos e historiadores compreendem a Amazônia anterior à conquista europeia.

Durante boa parte do século XX, prevaleceu a ideia de que as características ambientais da floresta tropical — especialmente seus solos geralmente pobres — limitavam fortemente o crescimento populacional e impediam o desenvolvimento de sociedades complexas.

As evidências acumuladas nas últimas décadas colocaram essa interpretação em xeque.

Geoglifos, terras pretas antropogênicas, sistemas agrícolas, manejo de espécies vegetais, grandes aldeias, caminhos e outras estruturas demonstram que diversas populações indígenas não apenas se adaptaram à floresta como também transformaram deliberadamente partes dela.

A Amazônia encontrada pelos europeus, portanto, não era necessariamente uma natureza completamente separada da ação humana. Em muitas regiões, era também resultado de séculos — ou milênios — de interação entre sociedades indígenas e o ambiente.

Aquiry não estava sozinha

As descobertas no Acre precisam ser vistas dentro de um contexto arqueológico amazônico muito mais amplo.

Na Ilha de Marajó, sociedades pré-colombianas produziram sofisticadas cerâmicas e construíram grandes aterros artificiais. Na região do Tapajós, populações numerosas desenvolveram importantes centros de ocupação. No Alto Xingu, pesquisas revelaram redes de aldeias conectadas por estradas e organizadas segundo padrões planejados.

Na atual Bolívia, os Llanos de Mojos preservam extensos vestígios de canais, campos elevados, plataformas e obras de terra realizadas por populações indígenas.

Em conjunto, essas descobertas estão revelando uma Amazônia pré-colombiana muito mais diversificada e densamente ocupada do que se imaginava algumas décadas atrás.

Um novo capítulo da história amazônica

A chamada Civilização Aquiry ainda guarda numerosos mistérios.

Não sabemos exatamente como essas sociedades se organizavam politicamente, quais línguas falavam, como funcionavam suas lideranças ou quais crenças estavam associadas aos monumentos geométricos.

Também permanece em aberto a questão de por que muitos desses grandes centros deixaram de ser utilizados.

O que as pesquisas já permitem afirmar é que o sudoeste amazônico possui uma história humana muito mais antiga e complexa do que sugeriam antigas interpretações.

Os enormes desenhos geométricos espalhados pelo Acre deixaram de ser apenas curiosidades visíveis do céu. Eles constituem evidências de sociedades capazes de planejar grandes obras, mobilizar mão de obra, construir redes de comunicação e transformar extensas áreas da paisagem.

A cada nova descoberta, emerge uma imagem diferente da Amazônia anterior à chegada dos europeus: não simplesmente uma floresta vazia ou intocada, mas um território habitado, manejado e culturalmente transformado durante milhares de anos por sociedades indígenas complexas.

Nesse novo quadro histórico, a Civilização Aquiry ocupa um lugar cada vez mais importante — e pode representar apenas uma das muitas páginas da história amazônica que ainda permanecem escondidas sob a floresta.

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