As mineradoras Serra Verde e Aclara fecharam contratos de financiamento com o Development Finance Corporation (DFC – Corporação Financeira para o Desenvolvimento) sem que os governos do Brasil e dos Estados Unidos tenham definido formalmente um acordo de cooperação.
O DFC é uma instituição financeira de desenvolvimento e agência do governo federal dos Estados Unidos. Seu propósito seria o investimento “em projetos de desenvolvimento principalmente em países de baixa e média renda”.
A Serra Verde é a única mineradora de terras raras no Brasil, controlada por dois fundos de investimento dos EUA e um britânico. Opera no município de Minaçu, Goiás, a mineração e processamento de terras raras, um dos maiores depósitos de argila iônica fora da Ásia, de acordo com a empresa. Após demorado processo de licenciamento, a exploração comercial começou em 2024.
Em novembro de 2025, foi anunciado que a Serra Verde receberia um financiamento de US$ 465 milhões do DFC, destinado à expansão de sua produção.
Já a Aclara fechou um acordo de financiamento com a mesma entidade no valor de US$ 5 milhões, valores mais modestos que se explicam pelo fato desta ainda estar na fase de projeto e não ter iniciado sua operação. Contudo, o acordo de financiamento prevê o retorno do investimento na forma de ações da empresa pelo financiador – o que poderá colocar a empresa sob o controle ou influência de uma agência de governo dos EUA.
Em outubro, a Aclara anunciou o investimento de uma refinaria nos EUA para separar o concentrado das terras raras produzidas no Brasil, em um montante de US$ 277 milhões.
A Aclara é controlada pelo Hochschild Group e Compañia de Acero del Pacifico (CAP S.A.). A primeira é uma companhia britânica com escritório do Peru e a segunda uma mineradora chilena.
De acordo com Samantha Carl-Yoder, ex-vice-cônsul dos EUA em São Paulo e atualmente diretora de uma empresa de lobby em seu país, “para uma empresa de minerais críticos receber financiamento do DFC, ela deve garantir que uma certa quantidade de sua produção seja destinada aos Estados Unidos”.
Iniciativas essas como a da Aclara vão em sentido contrário do esboço de política para o setor do governo Lula, na ausência de um sólido marco regulatório para o setor. Diante das negociações entre Brasil e EUA para a exploração das terras raras no Brasil e seu devido processamento, Lula afirmou que a geração de valor agregado dentro do país seria uma condicionante para qualquer acordo.
A rigor, um acordo oficial com o governo dos EUA não é necessário para tais iniciativas, já que o setor mineral brasileiro tem uma forte presença de grandes mineradoras estrangeiras, inclusive estadunidenses. Mas o que faz falta é uma política de Estado que favoreça o beneficiamento desses minérios e, de um modo geral, uma forte agregação de valor à produção nacional, e não só mineral, mas também no setor de alimentos. Essa deveria ser uma das diretrizes fundamentais de qualquer projeto de reindustrialização e adensamento tecnológico da economia brasileira, algo que também seria de interesse da maioria dos parceiros comerciais e de investimentos estrangeiros.


