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23 de fevereiro de 2026 por Lorenzo Carrasco

O refluxo do ambientalismo e a retomada da energia nuclear

O refluxo do ambientalismo e a retomada da energia nuclear
23 de fevereiro de 2026 por Lorenzo Carrasco

Antes mesmo do retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, a Suécia, terra da ex-matadora de aulas Greta Thunberg, já sinalizava uma tendência para o esvaziamento da ideologia e das políticas ambientalistas, cujos embates com as leis físicas e a economia real têm evidenciado a sua incompatibilidade com o desenvolvimento humano.

Desde 2022, o governo do primeiro-ministro Ulf Kristersson, uma coalizão de centro-direita entre os partidos Moderado, Democratas Cristãos e Democratas Suecos, tem demonstrado uma clara preferência pelo desenvolvimento econômico do país, em detrimento das agendas “verdes”.

Para começar, aboliu o Ministério do Meio Ambiente, convertendo-o numa repartição do Ministério da Energia, Negócios e Indústria. Igualmente, cortou subsídios para automóveis elétricos, reduziu os impostos sobre o diesel para aliviar a situação dos produtores agropecuários e congelou as garantias estatais a projetos industriais vinculados à transição energética.

Com a reorientação, o movimento de Greta, Fridays for Future, praticamente sumiu de cena e a ex-militante climática agora oferece os seus serviços a outras causas políticas em outros países, inclusive protestos contra os governos da Geórgia e de Israel.

Um ambientalista mais graduado, o economista Johan Rockström, diretor-adjunto do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos (PIK), um dos principais centros de divulgação do catastrofismo climático, lamenta: “Fomos uma das primeiras economias do mundo a demonstrar que podemos dissociar o crescimento econômico das emissões. Agora, estamos perdendo a nossa reputação como um país que inspira respeito.”

Em paralelo com o “desverdeamento”, o país se junta decididamente ao impulso de retomada da energia nuclear, modalidade que nunca contou com a simpatia dos ambientalistas, que se verifica em todo o mundo.

Atualmente, a Suécia opera seis reatores nucleares, com capacidade total de 6 gigawatts (GW), que fornecem cerca de 30% da eletricidade doméstica, e pretende instalar mais dez até 2045, entre os quais pequenos reatores modulares (SMR, em inglês), duplicando a atual capacidade instalada.

Para tanto, o governo introduziu mecanismos de apoio estatal, como empréstimos públicos e contratos de preços diferenciados, para atrair investidores e reduzir os riscos financeiros do setor, enquanto o Parlamento atualizou a legislação setorial, inclusive, para permitir a construção de reatores em áreas costeiras, anteriormente vetada.

A ambiciosa expansão da energia nuclear é considerada como peça central da transição energética sueca.

O movimento ocorre em sintonia com o renascimento nuclear em curso no mundo, com as fontes nucleares assumindo um papel cada vez mais relevante em termos da necessidade de se contar com uma considerável expansão da geração de base confiável, em especial, em função das necessidades da economia digital (data centers etc.), e da percepção crescente da inviabilidade tecnológica de que tais requisitos sejam preenchidos por fontes intermitentes como as eólicas e solares.

Atualmente, existem 415 reatores nucleares de potência em operação em 32 países, totalizando pouco menos de 390 GW de capacidade instalada, o que representa cerca de 9% da geração mundial de eletricidade. Outros 68 estão em construção em dez países, representando uma capacidade de 65-68 GW.

Uma tecnologia extremamente promissora é a dos SMR, com potências na faixa de 100-300 megawatts (MW), dos quais existem cerca de 120 projetos em desenvolvimento, sinalizando uma promessa de menores custos de construção e maior flexibilidade operacional, podendo ser instalados em centros urbanos e industriais de menor porte ou alimentar data centers, entre outras possibilidades.

Por sua vez, enquanto o mundo avança, o Brasil segue patinando com o seu programa nuclear, em decorrência de uma miopia estratégica geradora de indecisão política que mantém o setor refém de uma seca orçamentária potencialmente fatal. A usina Angra 3, cujo projeto se arrasta há quatro décadas, é o maior exemplo desse descaso, que está levando uma geração inteira de técnicos nucleares a se retirar sem vê-la concluída. Além do desgaste da força de trabalho qualificada, a ausência de uma decisão tem um alto custo financeiro aos cofres públicos, cerca de R$ 1 bilhão por ano atirados no ralo com custos financeiros e a manutenção de um canteiro de obras paralisado. Sem falar no risco de colapso financeiro da estatal Eletronuclear, ameaçada pela cobrança de quase R$ 7 bilhões em dívidas relacionadas à usina junto a bancos oficiais.

Em 2024, os credores concordaram com uma suspensão temporária da cobrança das dívidas, mas o recurso não pode ser repetido indefinidamente.

Mas nem tudo são más notícias. Uma iniciativa das mais promissoras é o Projeto de Microrreator Nuclear Nacional (PMNN), que visa ao desenho e construção de um microrreator de 5 MW, com um amplo leque de usos potenciais: geração elétrica e térmica para pequenas comunidades, instalações industriais, áreas remotas, hospitais e até mesmo exploração petrolífera.

O projeto, liderado pelas empresas privadas Diamante Energia e Terminus P&D em Energia e pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), recebeu R$ 30 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e R$ 20 milhões da Diamante Energia. Esta última controla o complexo termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, e pretende converter parte da infraestrutura do complexo em um centro de inovação para o desenvolvimento tecnológico e operacional do microrreator.

O PMNN é um oportuno exemplo de parceria público-privada, muito bem vinda para a área nuclear, e conta com a participação de outras instituições, entre elas a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. (AMAZUL), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL), Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha (DDNM) e Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).

A previsão é que os estudos conceituais das tecnologias envolvidas estejam concluídos até 2028.

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