A revogação do decreto 12.600 de 2025, que incluía a Hidrovia do Rio Tapajós no Plano Nacional de Desestatização, representou uma derrota para os projetos de integração física da Região Amazônica.
A revogação, iniciativa do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e da ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, foi uma manobra política do governo, que não quis contrariar parte de sua tradicional base de apoio em um ano eleitoral.
O PSOL, partido de ambos os ministros, celebrou ruidosamente a revogação do decreto, resultado de forte pressão dos “movimentos sociais”, leia-se o aparato ambientalista-indigenista que opera no Brasil, que ocupou durante mais de um mês instalações portuárias da empresa Cargill em Santarém (PA) e o seu escritório em São Paulo (SP), mobilização encerrada apenas com a revogação do decreto, no final de fevereiro.
Uma representante da ONG COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) afirmou ao portal R7: “A revogação do decreto representa um passo importante, mas os povos da região seguem mobilizados e fortalecidos diante de outras ameaças, como o projeto da Ferrogrão, que pretende ligar Mato Grosso ao Pará para o escoamento de grãos. Portanto, continuaremos vigilantes e atuantes na defesa dos nossos territórios e direitos.”
De maneira explícita, ela deixa claro que um dos objetivos estratégicos da coordenação dos manifestantes é inviabilizar ao máximo o corredor logístico, que possibilitaria redução de custos de transportes e mesmo ambientais, considerando-se a redução de emissões de carbono com menor uso das rodovias precarizadas, para o escoamento da produção agropecuária e mineral do Centro-Oeste. O corredor logístico do Norte seria uma ótima alternativa ao escoamento pelo Sudeste, com potencial para fomentar mesmo o processo de industrialização do Centro-Oeste e parte da região Norte, dentro da Amazônia Legal.
A hidrovia integra o corredor logístico estratégico da Amazônia, conectando os portos de Itaituba e Santarém, no Pará, com previsão de investimentos na dragagem dos rios, para aumentar o volume de cargas transportadas. Com isso, previa-se uma redução nos custos de transportes com a redução do uso da rodovia BR-163, que liga o Mato Grosso a Santarém.
No mesmo corredor logístico, está incluída a Ferrogrão, projeto de integração ferroviária entre Sinop (MT) e o porto de Miritituba, na mesma região do rio Tapajós. O projeto da ferrovia está paralisado no Supremo Tribunal Federal desde 2021, devido a uma ação do PSOL, que alega que a construção da ferrovia causaria impactos ambientais nas terras indígenas próximas ao traçado de mais de 900 km.
É bom que fique claro ao leitor que tais ações dos “movimentos sociais” devem ser entendidas dentro do contexto de negociação final do Acordo Mercosul-União Europeia, pelo qual o Brasil, por pressão dos europeus, fica sujeito a cotas de exportação de produtos agropecuários, considerando a vantagem de preços dos produtos brasileiros no mercado europeu. Custos que poderiam ser reduzidos ainda mais com a viabilização plena do corredor logístico do Norte.
Daí se compreende o vínculo entre governos europeus e o financiamento a esses movimentos e ONGs, apesar da cegueira de parte considerável da esquerda brasileira, que não consegue compreender essas ligações bastante questionáveis.

